Principais fatores psicológicos que influenciam no treinamento do Triathlon

Texto produzido por Alberto Soares Lundgren Corrêa e Bruno Henrique Pignata para o Terceiro Curso de Especialização em Metodologia do Treinamento em Triathlon sob a chancela da Faculdade de Educação Física da UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas com o programa de formação de treinadores em Triathlon em sua edição de 2019..

Introdução

Com uma crescente busca pela qualidade de vida, a população vem procurando aumentar o nível de atividade física. A prática da atividade física é a melhor maneira de prevenção de diversas doenças, e com isso, as pessoas começam a buscar uma atividade que mais se identifiquem.

Inicialmente, as pessoas são mais influenciadas por irmãos, pais e amigos a praticar atividades esportivas (JAEGER, 2016). Mas isso não é suficiente, pois para manter uma prática regular, a pessoa precisa de um motivo maior, que a ajude a praticar e dar continuidade ao treinamento.

Existem vários motivos que levam à prática esportiva, como por exemplo, fazer amigos, agradar alguém, ganhar algum campeonato, dentre outros (JAEGER, 2016), e seja qual for à necessidade da prática esportiva, os treinadores devem estar atentos para identificar os fatores que podem ajudar ou prejudicar a continuidade do treinamento, além de entender a real necessidade daquela prática.

Durante o processo de treinamento o atleta sofre influência de fatores externos e internos que podem aumentar ou diminuir seu desempenho. A maneira que o treinador conduz cada atleta pode fazer a diferença não somente no seu resultado, mas também na sua continuidade. Outras áreas da ciência do esporte também oferecem contribuições importantes nessa continuidade, e em alguns casos são fundamentais para que haja êxito no resultado.

Problema

Devido a muitas horas dedicadas ao treinamento do triathlon e aos desafios a serem superados pelo praticante, que vão desde completar a prova, até ganhar uma competição, torna-se fundamental entender o que mantém o atleta assíduo aos treinamentos. Quais são as questões psicológicas que podem atrapalhar seu desempenho, como o treino deve ser conduzido, e de que forma o treinador deve instruir seu atleta visando a evolução do treinamento e do atleta.

Justificativa

Muitos são os estudos fundamentados na fisiologia, biomecânica, estratégia de prova, ciclos de treinamento e nutrição, que visam à busca de respostas na melhora do desempenho esportivo (RÚBIO, 1999).

Diante desse cenário, é fundamental que o treinador entenda quais fatores psicológicos servem como um alicerce para a construção do desempenho físico do atleta e sua continuidade no esporte.

Objetivo

O foco desse trabalho é investigar quais são os principais aspectos psicológicos que interferem no desempenho e na continuidade do treinamento de triathlon. O texto busca entender o que leva um atleta a se manter motivado durante o processo de treinamento, identificar quais são os dispositivos desencadeadores da ansiedade e estresse que interferem negativamente, e como o treinador pode auxiliar o atleta neste processo, minimizando esses efeitos negativos.

Metodologia

Foi feita uma revisão bibliográfica usando buscas nos sites Scielo, Pubmed, Google scholar, e PEPSIC. Foram selecionados artigos científicos, trabalhos de conclusão de cursos, e dissertação de mestrado que combinasse as palavras chaves: motivação, ansiedade, estresse, mentalização, e psicologia esportiva.

Desenvolvimento

A psicologia do Esporte

Na busca de conhecimento pelas respostas no contexto esportivo, a psicologia esportiva une-se com outras áreas, como a Antropologia, Filosofia, Sociologia do Esporte, Medicina, Fisiologia e Biomecânica do Esporte; todas estas disciplinas compõem a chamada Ciência do Esporte (RÚBIO, 1999). Apesar de alguns autores denominarem as Ciências do Esporte como uma área interdisciplinar (DE ROSE JÚNIOR, 1992).

Os primeiros estudos na área datam desde o século retrasado, quando Fitz em 1895, conduziu uma investigação no laboratório de anatomia, fisiologia e treinamento físico da universidade de Harvard, em relação ao tempo de reação múltiplo, e publicou os resultados no Psychological Review (SOUZA FILHO, 2000).

No Brasil os estudos datam da década de 50, tendo como marco o trabalho feito a partir da copa do mundo de futebol de 1958 por João Carvalhaes (RÚBIO, 2002).

Contribuições feitas por Griffith, fundador do primeiro laboratório de pesquisa aplicada ao esporte nos Estados Unidos, anteriores à década de 50, entre o período de 1950 e 1980 que a Psicologia do Esporte começou a construir a sustentação teórica tirando o foco da área do comportamento motor (VIEIRA et al., 2010).

Os estudos na área da psicologia esportiva vêm sendo direcionado em: estado de humor, depressão, ansiedade, resistência a dor, estresse, compulsão ao exercício, “drogatização” no esporte, distúrbios alimentares (FILHO, 2000); motivação, personalidade, agressão e violência, liderança, dinâmica de grupo, e bem-estar de atletas (RÚBIO, 1999). Outros temas também são encontrados, como o bournout, coping, capacidade visual e mental, rendimento motor, atenção, cognição, autoeficácia, confiança, imagem, perfeccionismo, abandono, comportamento no exercício, personalidade, aspectos sociais, e efeitos psicofisiológicos (DE ROSE JUNIOR;
VASCONCELOS 1997; RICHARD; EDWARD, 2000).

Vieira (2010), disse no European congress of sport psychology, Congresso Europeu de Psicologia Esportiva em 2007, realizado na Grécia, que os quatros principais temas de trabalhos apresentados são sobre: 1) Mentalização e Performance (16,17%); 2) Motivação (16,3%); e 3) Estresse e Ansiedade (9,03%). E é com esse norte de produção científica em busca de explicação no âmbito psicológico do esporte que centramos esse estudo.

História do Triathlon

Cidade de San Diego, na Califórnia, em 1975, que se tem o registro mais antigo de uma competição de triathlon, nos moldes mais próximos aos realizados de hoje em dia. Sua história conta que, foi realizado em um clube de atletismo, o Track; Field Club, onde os atletas deveriam nadar, pedalar e correr (HELAL, 2012).

Entretanto, a história mais conhecida e difundida aconteceu em 1978 no estado do Havaí – USA, onde um grupo de 15 amigos reuniram as três maratonas do estado, sendo: 3.800m de natação na tradicional Waikiki Rough Water Swim, os 180Km de ciclismo da Around the Island Bike Race e os 42Km da maratona de Honolulu (DOMINGUES, 1995); e quem a completasse seria considerado o “HOMEM DE FERRO”, surgindo assim o nome IRONMAN.

A modalidade hoje, consiste em nadar, pedalar e correr em sequência. E neste esporte, as 4 principais distâncias são:

NadarPedalarCorrer
Sprint750 m20 km5 km
Standard1500 m40 km10 km
Meio Ironman (70.3)1900 m90 km21 km
Ironman (140.6)3800 m180 km42 km

Por ser um esporte composto por 3 etapas, a rotina diária de treinos é intensa, e para quem tem como objetivo alcançar resultados expressivos o seu cotidiano deve ser muito bem organizado.

Além da parte física o triathleta deve estar com seu emocional, preparado para enfrentar todos os medos, anseios, inseguranças, desmotivação, expectativas criadas, e ter força de vontade para dar continuidade aos seus treinos, até mesmo em dias onde se encontra menos disposto.

Podemos descrever o triathlon como um esporte que apresenta diversos desafios a serem superados, trazendo muitas conquistas, tanto no aspecto competitivo quanto no emocional. Como os desafios e expectativas são grandes, o atleta fica mais envolvido emocionalmente com a prova e os treinos ao decorrer do tempo e aproximação do objetivo. Por isso, o fator psicológico merece uma atenção especial.

Principais fatores psicológicos que influenciam o treinamento esportivo

Motivação

É preciso entender os motivos de um atleta, direcionando seu comportamento em função da qualidade no treinamento esportivo. Os estudos sobre motivação na prática de atividades físicas centram-se na compreensão dos fatores e processos associados à adesão, persistência e abandono da atividade física regular (DISHMAN, 1994; GOUVEIA, 2001). Através da psicometria os estudiosos vêm buscando mensurar de forma quantitativa ou qualitativa a motivação. Eles elaboram algumas escalas que dividem em partes algumas dimensões da motivação, e o indivíduo deve escalonar através de números pré-estabelecidos o quanto ele se relaciona com aquele item.

Os principais questionários são:

  • Motives for Physical Activity Measure Revise – MPAMR (RICHARD, 1997);
  • Motivation for Marathoners Scale – MOMS (MASTERS et al., 1993).

Esses questionários visam identificar em qual campo da motivação o atleta se encontra. Para Ryan et al. (1997), as pessoas podem ser motivadas pela própria atividade, pelo ganho de habilidade e competição, ou pela busca da melhora da aparência.

Masters et al. (1993), categoriza a motivação no campo psicológico, onde a pessoa melhora a autoestima e fica menos ansioso. No campo social, a pessoa é motivada pelo relacionamento com outro atleta, e quando recebe o reconhecimento ou aprovação de terceiros. Nos motivos físicos as pessoas buscam os benefícios estéticos e da saúde pela prática da atividade; já alguns atletas são motivados quando colocam metas pessoais e tem o sentimento de competição com os demais.

Na psicologia existem várias escolas de pensamento, cada uma busca explicação através do prisma de pensamento filosófico que fundamenta sua teoria. Existem algumas teorias que são aplicadas no contexto esportivo: teoria da expectativa de êxito e medo do fracasso; teoria da atribuição; teoria das metas de realização; e a teoria da motivação da competência. Mas, a teoria que vem sendo mais utilizada é a teoria da orientação para o ego versus orientação para a tarefa, que está inserida na teoria da realização (NICHOLLS, 1989).

O indivíduo busca satisfazer sua própria necessidade através de metas estabelecidas por si mesmo. A pessoa motivada pode e vai analisar e avaliar os resultados através do seu próprio esforço e conquistas. Para Vallerand (2001), motivação intrínseca é um comprometimento consigo mesmo e com o prazer de satisfação derivados da participação.

Os estudos indicam que, quando a pessoa é motivada pela tarefa, está propenso ao êxito (NICHOLLS, 1989; LI, HARMER et al., 1998; HALL, KERR,; MATTHEWS, 1998) e diminuição da tensão e ansiedade (MARTENS, GILL, 1990; KOBAL, 1996). As pessoas motivadas intrinsecamente têm como características a persistência, o esforço e o empenho (VALLERAND, 2001; WEINBERG e GOULD, 2001).

Quando sua motivação está baseada no meio, o atleta busca se motivar sendo melhor que o outro, ou conseguindo fazer o mesmo com menos esforço. Os treinadores devem evitar criar um clima motivado em cima do ego. Quando existe uma comparação pública e estimulação a competições interpessoais o atleta tende a ter uma maior ansiedade relativa ao rendimento e uma menor satisfação do ambiente esportivo (FRAILE, 2014).

Os atletas motivados pelo ego realizam a tarefa por sua consequência e a tarefa em si não é recompensadora, e tendem a se motivar apenas pela competitividade, diminuindo o senso de competência, autonomia e relacionamento com os outros. Isso pode estar associado ao abandono, desmotivação, e ansiedade quando os resultados não são obtidos, ou quando a necessidade do alvo extrínseco foi atingida (FRAILE, 2014).

Existe também a “amotivação” explicada conceitualmente por Vallerand (2001), como sendo o comportamento dirigido pela relativa ausência de motivação. Independente se movidos extrinsecamente ou intrinsecamente, os atletas se sentem melhores agindo por esses fatores, do que agindo por não terem nada melhor para fazer.

Mesmo sabendo dessas diferenças, não podemos falar que a motivação extrínseca deve ser totalmente esquecida. A motivação extrínseca pode ser um meio inicial do praticante despertar sua motivação; assim pode-se utilizar de meios externos para um início. Posteriormente outros fatores podem influenciar a motivação, e esta pode passar a ser intrínseca.

Ansiedade e Estresse

No triathlon existe uma separação entre atleta profissional e amador, em separação entre sexos. Os atletas profissionais competem na categoria elite, ou categoria profissional, enquanto os amadores se distribuem em faixas etárias, o age group (AG), geralmente dividido em faixas etárias de 5 em 5 anos.

Independente se o atleta está na categoria elite/profissional ou AG, todos estão sujeitos a ficar ansiosos e estressados. O triathlon é um esporte extremamente competitivo, individual, e leva os praticantes a desafios extremos, colocando em teste todo o treinamento, capacidade pessoal e exigindo equilíbrio emocional.

Para os atletas, a ansiedade e o estresse podem ser desencadeados por fatores como: divulgação na mídia, patrocinador, posicionamento no campeonato, número de vitórias que antecederam aquela etapa, sucessos ou fracassos anteriores, pela própria competitividade individual, e pela presença da família (DOBRÁNSZKY, 2007).

Segundo Jones, Hanton e Swain (1994), e Jones e Swain (1995), as diferenças individuais na interpretação dos sintomas de ansiedade podem estar associadas a variáveis denominadas de afetos positivos e afetos negativos. Esses afetos são a maneira que cada indivíduo recebe a mesma informação.

Pessoas que tem uma melhor autoconfiança, estado de entusiasmo, motivação, e aceitação de desafios, tendem a ter mais aspectos positivos. Enquanto o indivíduo com mais aspecto negativo possui uma maior ansiedade cognitiva e somática levando ao estresse (FERNANDES; VASCONCELOS-RAPOSO; FERNANDES, 2012).

A ansiedade pode ser um sentimento de nervosismo e incerteza, um estado emocional desagradável. A ansiedade pode ser uma característica contínua do indivíduo, um estado estável de ansiedade, que se denomina ansiedade-estado, sendo essa o estado emocional temporário do organismo humano, que varia de intensidade, e é instável no decorrer do tempo, caracterizado por um sentimento de medo, apreensão e tensão (SAMULSKI, 2002).

Existe também a ansiedade-traço, que se refere à reação ou resposta emocional evocada em um indivíduo ao perceber uma situação particular como pessoalmente perigosa ou ameaçadora, a despeito da presença ou ausência de um perigo real (SINGER, 1977). Indivíduos que possuem a ansiedade-traço estão prédispostos ao afeto negativo, com isso possuem uma visão geral para estados relacionados a situações de estresse caracterizadas por medos, preocupações e nervosismo, aumentando seu nível de ansiedade (JONES; SWAIN; HARWOOD, 1996).

Para os atletas, as principais fontes causadoras de estresse são: Inexperiência, medo de decepcionar, definição irreal de objetivos, necessidade de sempre ser o melhor, autocobrança exagerada, ter que provar o valor a todo momento, estar mal preparado, os relacionamentos com familiares e companheiros de equipe, os erros durante os jogos, as derrotas, a cobrança externa para vencer, e a falta de repouso/descanso (DE ROSE JÚNIOR, 2008).

Os estudos mostram grande correlação do nível de ansiedade e estresse com o rendimento e desempenho nas provas (FERNANDES; VASCONCELOS-RAPOSO; FERNANDES, 2012; FRAILE, 2014). Cobra (2003) diz que o estresse pode ser utilizado a favor do atleta, servindo como uma “mola propulsora”, nos colocando em nosso melhor desempenho quando somos exigidos. Isso faz com que o indivíduo utilize a pressão que coloca em si mesmo a favor de seu rendimento. Porém, esse estresse deve ser controlado e não extrapolar ao ponto de atrapalhar o desempenho e interferir até mesmo na saúde.

Pignata (2019), fortaleceu a ideia de que o estresse está relacionado ao desempenho individual, ao acúmulo de carga dos treinos, aos fatores ambientais e emocionais. Quando o estresse chega a níveis muito altos, De Barros e Nahas (2001) apontaram que, podem ser gerados alguns distúrbios como dores no corpo, tensão muscular, irritação, insônia, gripes, resfriados e até falta de atenção.

Quando os efeitos do estresse e ansiedade pré-competitivos são negativos, o atleta deve saber identificar e utilizar técnicas de relaxamento, respiração e procurar manter o senso de humor para combatê-los (RÚBIO 2003; FABIANE 2009).

Quando o atleta consegue identificar situações que o levam ao estresse, é necessário que ele utilize algumas técnicas denominadas de Coping. Essa técnica define-se todo conjunto de ação que o indivíduo faz para saber enfrentar situações estressoras (VASCONCELOS; DO NASCIMENTO, 2016).

Lazarus e Folkman (1984), elaboraram um modelo cognitivo-motivacionalrelacional que classifica em duas dimensões a estratégia de Coping. Uma abordagem onde o Coping está relacionado ao problema (estratégias que visam atuar na situação que deu origem ao evento estressor) e Coping focado na emoção (estratégias que visam regular o estado emocional desencadeado pelo evento estressor).

Nascimento Junior et al. (2010), concluíram que atletas do futebol de campo utilizam como estratégia de Coping a “treinabilidade” e a “confiança e motivação”. Já Freitas (2017), diz que as principais técnicas de enfrentamento dos ciclistas de elite são a mentalização, a dissociação, o estabelecimento de metas, relaxamento, concentração e trabalho de atenção e foco.

É importante que o atleta conheça suas emoções, saiba como seu corpo vai reagir diante de alguns fatores estressantes e tenha conhecimento de que estratégias podem utilizar em diversos momentos, para evitar que seu estado emocional atrapalhe seu desempenho.

Mentalização

Os estudos dos treinos mentais já têm uma longa tradição na psicologia esportiva e cada vez mais a ciência vem comprovando a importância desse recurso para os atletas. Temos grandes atletas que atribuíam boa parte do seu resultado a esse método. Como exemplo, podemos citar o jogador de golfe Jack Nicklaus, o atleta de salto ornamental Greg Louganis, o nadador Michael Phelps, a tenista Chris Evert, e piloto de fórmula 1 Ayrton Senna. Todos esses atletas viviam a prova na mente. Eles tinham todas as sensações e percepções reais de cada momento da prova e seus movimentos. Para que o processo de mentalização seja completo todos os sentidos devem estar envolvidos no processo de visualização (WEINBERG; GOULD, 2017).

Com o passar do tempo e acúmulo das experiências, o poder de se imaginar realizando cada movimento com mais perfeição acentua-se. Aos poucos, o atleta agrega cada momento de experiência positiva já realizado e constrói mentalmente “o todo”, aperfeiçoando cada movimento. Mas, mesmo em eventos que ainda não aconteceram, pode-se usufruir da mentalização como técnica para a melhora do desempenho. Todos os dias o atleta deve se imaginar (utilizando todos os sentidos) executando os movimentos que pretende realizar de forma perfeita e com riqueza de detalhes e sensações. Esse processo de mentalização aumenta a possibilidade de um gestual aprimorado, porém, esse processo não é exclusivo para os movimentos.
Podemos utilizar a mentalização para nos imaginarmos com diversas emoções durante prova.

No triathlon alguns dos receios do atleta é a condição do mar, e nesse caso o atleta deve-se imaginar no mar, em condições ruins, e imaginar quais seriam as sensações daquele momento (WEINBERG; GOULD, 2017).

Para uma maior reprodução da situação negativa, o atleta pode, por exemplo, se imaginar com medo, com o coração batendo forte e acelerado, a água batendo em seu rosto, engolindo a água e qual atitude de enfrentamento pode executar na hora. Assim, ele por diversos dias antes da competição, pode se imaginar vivendo e sempre conseguindo enfrentar as dificuldades e sair daquela sensação de pavor, aumentando assim a possibilidade de conduzir seu comportamento da forma mais próxima a imaginada no momento que possa vir a acontecer de verdade.

Esse tipo de treinamento mental já vem sendo realizado em países que possuem excelentes resultados olímpicos. Eles dão a mesma importância ao trabalho do psicólogo que dão aos aspectos técnico, médico, fisioterápicos e toda comissão de responsáveis pelo desempenho do atleta. Já o Brasil utiliza como uma das últimas fontes a recorrer, o treinamento mental (FREITAS, 2017).

Discussão

Diversos são os estudos sobre treinamento e o treinador pode aplicar uma diversidade de cálculos matemáticos para prever situações e determinar limiares. Mas o fator primordial nisso tudo é o Ser Humano.

É fato que há a necessidade de nos esforçarmos para tentar identificar, entender e direcionar o que o ser humano busca com a atividade física, o que ele quer, e o que ele pode entregar.

Antes de treinador, deve-se existir um professor, que auxilia o ser humano em um processo de desenvolvimento não só físico, mas também mental. Mesmo com as limitações pertinentes a área da educação física, devemos cuidar da parte psicológica de quem nos confia o seu tempo livre para cuidar de sua saúde, e do atleta com seus sonhos de vitórias e conquistas.

É fundamental entender cada pessoa como única, entender o que à motiva, quais são as reações que ela pode ter diante das dificuldades, quais os processos físicos e emocionais que podem influenciar positivamente e negativamente seu desempenho. Um comportamento errado do treinador, um comando mal interpretado ou o desleixo com o cuidado emocional do atleta, podem afetar todo o conhecimento técnico específico da parte física.

Numa tentativa de estimular o atleta a ser mais rápido, por exemplo, o treinador insistentemente utilizar técnicas focadas no ego diante de um atleta motivado pela tarefa, o resultado pode ser completamente diferente do esperado. Se um treinador não souber identificar em seu atleta um nível de ansiedade prejudicial e não conseguir dar um suporte, explicando ao atleta todas as situações que devem acontecer e fornecer instrumentos para que o indivíduo saiba lidar com as variáveis, todo trabalho de treinamento pode ruir.

Portanto, consideramos de extrema importância que o treinador tenha ciência dos principais aspectos psicológicos que interferem nos treinamentos, e que possa atuar em conjunto com o profissional da psicologia, incorporando o suporte emocional e o treinamento mental.

Para que haja sucesso no treinamento é necessário que haja uma pluridisciplinaridade e o treinador esteja muito próximo ao atleta conseguindo identificar suas necessidades.

Considerações finais

Diante desses principais fatores psicológicos que interferem no treinamento, algumas estratégias devem ser tomadas pelo treinador no intuito de minimizar o abandono, ansiedade, estresse e os erros da técnica esportiva.

Deve-se conhecer o atleta e fazer questionários e questionamentos que ajudem a tentar entender à que ele está motivado. Direcionar os comandos motivacionais adequados de forma individualizada aumenta a possibilidade de sucesso e engajamento do atleta. Saber um pouco sobre a história pessoal e entender situações que possam interferir na prática esportiva, ou no que a parte esportiva possa afetar a vida pessoal negativamente, ajuda a fazer ajustes necessários para a permanência do atleta no treinamento e na modalidade.

O estabelecimento de metas tangíveis que sejam desafiadoras, mas possíveis, de curto, médio e longo prazo, dá ao atleta a confiança de que ele é capaz de alcançar e o mantém motivado. Não havendo todo o cuidado possível, e as metas forem traçadas de forma errada, pode ocasionar um efeito negativo, e com isso o atleta pode se desmotivar.

Quanto mais antecedência de um evento esportivo, mais tempo de preparação o atleta tem para receber as instruções e estratégias, incorporando ao seu esquema mental o que deve ser realizado em uma competição. Não cabe ao profissional de educação física prescrever e orientar treinos mentais, esse papel cabe ao psicólogo. Porém, o treinador pode orientar sobre cada movimento, situação técnica e percepção de esforço que o atleta terá na prova ou no gestual a ser aprimorado. Assim, a situação pode ser vivenciada mentalmente e até mesmo relatada ao treinador que pode fazer os ajustes das situações técnicas que podem
não estar alinhadas com o planejado.

O treinador deve ser capaz de traçar as metas dando suporte e conhecimento ao atleta do que deve acontecer em seu treinamento. Escolher uma estratégia técnica e psicológica adequada a cada atleta aumentará a possibilidade de sucesso do treinamento. Com o decorrer do tempo e com as metas sendo alcançadas, o atleta se sentirá mais confiante e motivado. Alguns fatores psicológicos podem ser minimizados pelo treinador, mas somente um psicólogo está apto a direcionar e estabilizar a parte psíquica do atleta.

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